EQUOTERAPIA: A CU RA ATRAVÉS DO CAVALO      Para a Saúde e a Educação >>

Quem anda à cavalo sabe o prazer que esta atividade proporciona. Mas a maioria das pessoas desconhece os inúmeros benefícios – não somente ao físico, mas também à mente - que a cavalgada, ou um simples andar à passo, proporcionam. Estresse, problemas físicos e psicológicos, podem ser tratados através da Equoterapia – ciência conhecida há milhares de anos e, que agora, vem sendo reconhecida como um dos mais eficazes métodos para a cura de inúmeros males – do físico e da alma.

A equoterapia – apesar de estar sendo valorizada e estimulada nas últimas décadas – é uma ciência milenar. Na Grécia antiga, por volta de 350 A.C. Hipócrates - o pai da medicina – já aconselhava a sua prática na solução de problemas de saúde, em especial para a insônia e, até para tratar de problemas comportamentais, como complexo de inferioridade. Também os árabes – que sempre lidaram com o cavalo – utilizavam a equoterapia como prática terapêutica. Porém, durante séculos a terapia permaneceu em plano secundário.
Foi somente após a II guerra mundial que a equoterapia foi novamente resgatada e passou a ser valorizada e estudada com a devida importância. Hoje, em muitos países, os resultados desta ciência são reconhecidos no tratamento de pessoas de todas as idades – crianças, adolescentes e adultos – portadoras de deficiências físicas e psicomotoras, com distúrbios psíquicos ou de relacionamento social.
Como se não bastasse, a equoterapia é excelente ainda para quem apresenta dificuldade de aprendizagem escolar. Afinal, montar à cavalo é um prazeiroso processo de aplicação dos melhores exercícios motores e psicomotores, além de proporcionar sensação de independência, o que estimula a auto-estima e auto-confiança.
" O cavalo ao passo transmite ao cavaleiro todos os movimentos, como se ele estivesse caminhando -, explica o médico neurologista e presidente da Associação Gaúcha de Equoterapia (AGE), José Torquato Severo. Ele destaca que a ciência – que já é reconhecida no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina, é considerada um tratamento sobre o cavalo e com o cavalo, cujo resultado é o desenvolvimento bio-psico-social.
" É inegável o desenvolvimento cognitivo, psicomotor e afetivo obtido através da prática da equoterapia", observa Severo, um dos mais experientes especialistas na área e cujo trabalho é reconhecido não somente no Brasil, mas em vários países do mundo, como no Equador e na Argentina, onde esteve recentemente.
Ele acrescenta que a ciência tem conseguido excelentes resultados quando ministrada por profissionais técnica e cientificamente habilitados e sob orientação médica. Ou seja, por uma equipe multidiscplinar e profissional, constituída por pedagogos, instrutores de equitação, psicólogos, fisioterapeutas, professores de educação física e, até fonoaudiólogos.
Já estão comprovados cientificamente os benefícios da equoterapia para praticantes com deficiências motoras, paralisia cerebral, deficientes na produção de movimentos e com movimentos involuntários, problemas na coordenação, equilíbrio, lesões medulares e de nervos periféricos, patologias ortopédicas. Distúrbios de comportamento relacional, problemas de baixo-estima e outros também são solucionados através da ciência, que age ainda de maneira bastante eficaz em casos de pacientes psicóticos graves, com Síndrome de Down e autismo.
A importância da equoterapia vem sendo cada vez mais reconhecida e, em alguns países, a sua utilização vem crescendo a cada dia, no tratamento dos mais diversos males, chegando a algumas centenas de centros especializados. É o caso da Alemanha, onde existem 925 locais para a prática da ciência. Na França existem mais de 700 e, na Bélgica, mais de 300.


Suzane de Azevedo - psicologa e instrutora da AGE

     APRENDIZADO LÚDICO ATRAVÉS DO CAVALO

 A equoterapia é uma ciência bastante nova no Brasil, cerca de 20 anos. Mas, hoje esta terapia que utiliza o cavalo como instrumento terapêutico tem excelentes centros distribuídos em vários estados e, em Brasília, está instalada a Associação Nacional de Equoterapia (Ande-Brasil), que funciona na Granja do Torto. No Rio Grande do Sul, a ciência está sendo cada vez mais difundida e, desde 1992, vem sendo utilizada no tratamento de diversos problemas – físicos, psiquicos e comportamentais, incluindo dificuldade de aprendizagem, com sucesso. A criação da Associação Gaúcha de Equoterapia (AGE), em 1995, foi fundamenal para a expansão da ciência no Estado, que hoje já possui mais de 10 centros filiados.
O sucesso do trabalho desenvolvido pela Associação Gaúcha de Equoterapia deve-se a capacitada equipe de profissionais que lá dedicam seus conhecimentos. O presidente da entidade, José Torqueto Severo, ressalta que a terapia é desenvolvida por uma equipe interprofissional e multidisciplinar, integrada por ele próprio, que além de grande conhecedor de cavalos, é oficial de cavalaria, mestre em educação e conhecido médico neurologista, pelo também oficial da cavalaria, coronel Luiz Carlos Saldanha, responsável pelo programa de equitação para a saúde, pela pedagoga Clarissa Candiota, psicóloga Susiane de Azevedo, fisioterapeuta Carla Teixeira, fonoaudióloga Andréia Ruschel e o instrutor de equitação e professor de Educação Física, José Inácio Pinheiro. O Centro utiliza a estrutura do Regimento Osório e tem como auxiliares os soldados.
Três programas são desenvolvidos na Associação Gaúcha de Terapia: Programa Complementar de Atividades Físicas, Programa de Equitação para Saúde e Programa de Equoterapia na Educação, em convênio com a Secretaria Municipal de Educação (SMED). Atualmente, o AGE conta com 45 praticantes: 33 integram o programa de equoterapia na saúde e 12 o de equoterapia na educação. A entidade –além do excelente trabalho na equoterapia – ainda tem o mérito de criar a bolsa terapêutica, em que toda a receita da equitação, é destinada ao programa de saúde.
A procura pela equoterapia tem aumentado e não somente por quem necessita de cuidados especiais na área física ou psicológica.
“As pessoas estão descobrindo o prazer – e, principalmente os benefícios que andar à cavalo proporciona à saúde física e mental”, observa Saldanha. Segundo ele, o cavalo, além de funcionar como fator de integração, quando utilizado como instrumento terapêutico obtém resultados dificilmente alcançados por outros tratamentos, pois age simultaneamente no sistema orgânico e psicológico, além de beneficiar o comportamento social.  
“Não há nenhum tratamento que transmita ao praticante a quantidade de movimentos que o cavalo transmite, pois em apenas um minuto, ocorrem de 1.800 a 2.200 estímulos na região do pélvis e coluna e, em torno de 40 a 45 mil estímulos numa sessão de meia hora”,
explica Saldanha. Além disso, ele lembra que a relação cavaleiro/cavalo contribui
– comprovadamente -  para elevar a auto-estima e sociabilidade dos praticantes de equitação.

EQUIPE  MULTIDISCIPLINAR

             
            Na equoterapia é essencial uma equipe multidisciplinar para desenvolver o tratamento, seja para tratar problemas físicos ou psicológicos. Ao procurar a Associação Gaúcha de Equoterapia (AGE) é realizada uma avaliação do futuro praticante. A equipe, constituída por médico, fisioterapeuta, psicóloga, instrutor de equitação, pedagoga e fonoaudióloga, avalia caso a caso e é feito um programa de exercícios. Se a dificuldade do praticante é de aprendizado, é feito um programa na área pedagógica. Muitas vezes há a participação de um ou mais profissionais durante o tratamento. No caso, por exemplo, de um aluno paraplégico, o programa terá a participação de um fisioterapeuta, mais o instrutor de equitação.
             Até algum tempo atrás, não se imaginava os benefícios da equoterapia para o desenvolvimento do aprendizado cognitivo e intelectual. Entretanto, hoje já está mais do que provado as inúmeras vantagens que a equoterapia aplicada à educação proporciona a crianças e adolescentes com dificuldade escolar, como a reestruturação e desenvolvimento das fases motoras, da atenção e percepção.
               “O tratamento utilizando o cavalo é lúdico, então não há o estigma dos consultórios”, observa a pedagoga Clarissa Candiota, que integra a Equipe Interdisciplinar da AGE. Ela acrescenta que o tratamento de crianças com problemas de aprendizagem através da equoterapia apresenta excelentes resultados, pois a prática eleva a auto-estima, melhora a concentração e a postura dos pequenos praticantes em relação à atitudes. A novidade, o andar à cavalo, já é uma fonte de novas descobertas e as crianças sentem-se mais seguras quando constatam a capacidade de lidar com o animal com tudo que isto implica: afetividade, adquirir o controle, desenvolver a concentração. Atualmente a AGE realiza um trabalho pioneiro, através da equoterapia na educação, ao empregar o método em 15 crianças de escolas municipais, o que se tornou possível graças a um convênio com a Secretaria Municipal de Educação (SMED).
                    Se na educação os benefícios da equoterapia são inúmeros, o mesmo ocorre com pessoas que buscam na terapia a solução para problemas psicológicos ou sociais. O vínculo cavalo-cavaleiro, estabelecido desde as primeiras sessões desenvolve a afetividade. E, conforme a psicóloga Susane de Azevedo, há um ganho geral: a auto-confiança e auto-estima crescem e, em conseqüência melhoram outros aspectos como o senso de limite e responsabilidade, o relacionamento interpessoal e casos de timidez, retração, hiperatividade. doenças do humor e depressão, entre outras, apresentam sensível progresso.
                     Para a psicóloga, os resultados favoráveis obtidos na psicologia através da equoterapia se deve ao diferencial de utilizar o animal, o que permite trabalhar mais o afeto, a autonomia do ir e vir. “A conotação de liberdade, de se locomover, é essencial e, além disto, há o ganho físico, proporcionado pelo movimento do cavalo, além do ganho emocional”.
                      Sem dúvida, a equoterapia aliada a pedagogia e psicologia torna-se bem mais atraente para quem necessita de atendimento nestas áreas. O que muitos desconhecem são os resultados obtidos também na área da fonoaudiologia. Quem tem problemas na fala pode recorrer ao tratamento com a equoterapia. “É impressionante a reação das crianças”, observa a fonoaudióloga, Andréia Ruschel, da equipe multidisciplinar da AGE. Ela destaca, assim como os outros especialistas, o fato dos pacientes não ficarem confinados entre quatro paredes e o contato com o cavalo um diferencial positivo, que motiva as crianças com problemas na fala, auditivos, de motricidade oral e outros. Afinal, o cavalo passa a ser uma atração irrestível e que traz muitos resultados: os sons emitidos pelo animal servem de exercícios para os pequenos.                   
                     Já a fisioterapeuta Carla Teixeira, ressalta a importância da equoterapia na sua especialidade. Adultos e crian;as que necessitam de fisioterapia tem nesta ciência um auxílio precioso. “Os movimentos do cavalo estimulam os músculos que estão parados e melhoram o equílibrio e a autonomia”, explica Carla. Segundo ela, pacientes paraplégicos, ao subirem no cavalo têm um ganho incrível, não somente no aspecto físico, mas também, no psicológico, já que passam a ver o mundo sob outra perspectiva, sentindo-se mais seguros e capazes.


Aula com duas instrutoras

                       O instrutor de equitação é um dos integrantes da equipe multidisciplinar. Na AGE, José Inácio Pinheiro, formado em Educação Física, trabalha no picadeiro praticantes autonômos e semi-autonômos. Cada avanço de seus alunos é comemorado por ele, que considera a terapia sobre o cavalo um dos mais importantes exercícios físicos. Os resultados, de acordo com Pinheiro, chegam a ser surpreendentes em crianças com problemas como hiperatividade, autistas, síndrome de down e, também em casos de paralisia. 
         
              
Dr. Severo - Medico neurologista especializado em equoterapia e Coordenador da AGE
Clarissa Candiota - pedagoga e instrutora da AGE

Reportagem e textos: Ana Lúcia dos Santos Teixeira
Fotografia: Silvio Ávila